De soluções nas plataformas a parcerias com o Governo de SP, setor aposta em estratégias para proteger passageiras e condutoras

A presença de mulheres ao volante impacta diretamente na percepção de segurança de quem utiliza o transporte por aplicativo. É o que revela uma pesquisa realizada pela 99 em parceria com o instituto Think Eva: 93% das motoristas entrevistadas percebem que as passageiras ficam mais tranquilas quando descobrem que outra mulher conduzirá a viagem.
Para quem está no banco de trás, a identificação de uma motorista mulher diminui receios como portas travadas, janelas fechadas, mudanças inesperadas de rota ou comportamentos invasivos.
Do lado das profissionais, a apreensão também faz parte da rotina. Segundo o mesmo estudo, 76% das motoristas afirmam que o fato de serem mulheres aumenta os riscos durante o trabalho. A pesquisa ouviu 878 entrevistadas, entre condutoras parceiras e potenciais motoristas, em seis capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Fortaleza e Belo Horizonte.
Diante desse cenário, empresas do setor têm ampliado investimentos para criar mecanismos voltados à proteção de quem dirige e de quem utiliza o serviço. As iniciativas atendem tanto motoristas com veículo próprio quanto aquelas que atuam com automóveis alugados, viabilizados por empresas como a Kovi.
Na 99, por exemplo, o aporte destinado à segurança saiu de R$ 50 milhões em 2024 para R$ 75 milhões em 2025. A companhia afirma contar com mais de 50 funcionalidades que combinam tecnologia, inteligência artificial e suporte especializado.
Entre os recursos anunciados está a Pítia, sistema que identifica possíveis situações de risco e prioriza o direcionamento das corridas para motoristas mulheres ou para condutores homens com avaliações mais altas. Já a Athena envia comunicações preventivas e orientações de comportamento ao profissional designado para a viagem.
Movimento semelhante também aparece na Uber. Em outubro, durante um evento realizado em São Paulo, a empresa anunciou o início de um projeto piloto que permite às usuárias brasileiras solicitar corridas com motoristas mulheres. A fase de testes ocorre de forma gradual em municípios como Piracicaba, Uberlândia, Curitiba, Campinas, São José dos Campos, Ribeirão Preto e Campo Grande.
A novidade foi estruturada em diferentes formatos. Um deles possibilita escolher a opção de motoristas mulheres em viagens imediatas. Outro permite ativar a preferência por condutoras nas configurações do aplicativo, priorizando esse pareamento sempre que houver disponibilidade. Há ainda a alternativa de agendamento prévio, com solicitação feita com pelo menos 30 minutos de antecedência.
Além disso, a Uber mantém desde 2019 o U-Elas, modalidade que autoriza motoristas parceiras a aceitarem apenas chamadas de passageiras, assim como a 99, que conta com o Botão 99Mulher, com a mesma função.
Outra iniciativa direcionada ao público feminino é a Lady Driver, serviço de transporte criado em 2017 com foco exclusivo em mulheres. De acordo com a empresa, são cerca de 130 mil motoristas cadastradas e mais de 14 milhões de atendimentos realizados desde o lançamento.
A fundadora e CEO da Lady Driver, Gabryella Corrêa, afirma que a companhia investe em treinamento das motoristas e em acompanhamento próximo das profissionais, e que nunca houve registro de casos de violência durante as corridas.
Para atuar nesses aplicativos, há exigências que valem para todas as condutoras. É necessário possuir Carteira Nacional de Habilitação com a observação de Exercício de Atividade Remunerada (EAR), além de dirigir um veículo de quatro portas e equipado com ar-condicionado.
A documentação pode estar em nome da própria motorista ou de terceiros, incluindo familiares ou empresas que oferecem carros para alugar em São Paulo, por exemplo, alternativa buscada por quem deseja iniciar na atividade sem adquirir um automóvel.
Governo de São Paulo oferece transporte gratuito a vítimas de violência
O uso da tecnologia nas plataformas de corrida também tem apoiado políticas públicas de proteção às mulheres. Em São Paulo, uma parceria entre o governo estadual e a 99 passou a viabilizar transporte gratuito para vítimas de violência, utilizando o aplicativo como forma de garantir o deslocamento rápido e monitorado até a rede de atendimento.
A corrida sem custo pode levar a mulher até uma Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), ao Instituto Médico-Legal (IML) para a realização do exame de corpo de delito ou a um pronto-socorro. Lançada em janeiro de 2025, a iniciativa já havia registrado, até julho, 2025 viagens, média de uma beneficiada por dia.
O chamado acontece durante o atendimento policial. Ao receber a oferta do transporte, a vítima tem a corrida liberada por meio de um voucher acionado pela Polícia Militar dentro da plataforma. As agentes da Cabine Lilás, serviço especializado nesse tipo de ocorrência, acompanham o trajeto em tempo real e permanecem disponíveis caso seja necessário algum apoio adicional.
Dependendo da situação, uma viatura pode ser enviada para acompanhar o percurso até o destino, ampliando a rede de proteção oferecida à mulher.
Falta de segurança ainda limita a entrada de mulheres no setor
Mesmo com novas iniciativas das plataformas, a presença feminina ao volante segue menor do que a demanda das passageiras. Na Uber, apenas 8% dos motoristas cadastrados são mulheres, segundo a própria plataforma.
O medo ajuda a explicar esse cenário. Dados do levantamento realizado pela 99 em parceria com a Think Eva mostram que a segurança é a principal preocupação das motoristas. Assaltos e regiões vazias são temidos por 74,9% das entrevistadas. Em seguida vêm os riscos no trânsito, citados por 60%.
O estudo revela ainda que o assédio faz parte da lista de apreensões. Entre as profissionais ouvidas, 56,5% mencionam abordagens inadequadas de passageiros, 51% relatam medo de assédio sexual e 41% demonstram preocupação com situações envolvendo outros motoristas.
Quando o recorte considera quem ainda avalia ingressar na atividade, os índices sobem. O medo de assédio sexual, por exemplo, alcança 90% das potenciais motoristas. Além disso, antes de iniciarem no aplicativo, 21% relatavam medo significativo.
Depois de adquirem experiência e aprendizado no uso das ferramentas disponibilizadas pela 99, apenas 6% mantiveram a mesma percepção de medo, enquanto a maioria passou a declarar pouco ou nenhum receio, o que sugere que a vivência diária pode modificar a percepção de risco ao longo do tempo.
